Reza a história, segundo a mitologia grega, que foi a Deusa Atena a inventora da gaita. Decidida a abrilhantar a assembleia dos deuses com um novo instrumento de nome Aulo (assim se chamava), Atena tocou-o durante um banquete. Contudo, os deuses riram-se ao verem as suas bochechas inchadas, e furiosa a Deusa deitou-o fora amaldiçoando quem o viesse a encontrar. A gaita galega (ou gaita-de-fole galega, gaita minhota, gaita de fol ou simplesmente gaita) é um dos modelos mais conhecidos de gaita-de-fole. Originária do noroeste ibérico, a gaita galega tem experimentado uma crescente popularidade principalmente a partir dos anos 1970. Até então, como diversas outras facetas da cultura galega, esse instrumento sofreu de certa proscrição durante o governo de Francisco Franco. Contudo, para além duma maior liberdade de expressão conquistada pelo povo galego desde fins do regime franquista, um dos principais fatores da expansão da gaita galega foi a proliferação de artistas e grupos de música folclórica, a evidenciar a cultura galega.
Tradicionalmente a gaita galega se situa na Galiza e norte de Portugal, especialmente entre Minho e Douro Litoral – onde o modelo recebeu a alcunha de gaita minhota. Contudo ela é hoje tocada pelo mundo inteiro, especialmente em regiões de destino dos antigos imigrantes galegos, os quais emigraram de sua terra durante a chamada diáspora galega.
Hoje esse é justamente um dos grandes questionamentos para os entusiastas da gaita galega: como permitir sua popularização entre o público moderno sem perder traços de sua tradição.
A gaita galega tradicionalmente apresentava apenas três tubos melódicos: a cantadeira (ou ponteiro), o bordão (ou roncão) e o assoprador (ou soprete). No litoral português ela assim se preservou entre os populares.
Contudo, a partir de meados do século XX ela passa a sofrer transformações, que se antes já apresentava algumas dessas características, passaram a ser muito mais comuns: o ronquete (bordão tenor) e o ronquilho ou chilão (bordão alto, o menor de todos). Também, as afinações tradicionais em si e ré foram aos poucos sendo preteridas em relação à afinação em dó. As gaitas galegas tocadas tradicionalmente pelo Minho preservaram-se em geral nos moldes mais antigos.
Sua cantadeira possui afinação cônica, sendo meio-tom a diferença entre a nota fundamental e a tonal; utiliza palheta de cana dupla. O bordão baixo por sua vez utiliza palhão (palheta simples), afinado duas oitavas abaixo da tonal da cantadeira. O bordão tenor (ronquete) e o chilão também utilizam palhões, afinados uma oitava e uma quinta em relação à cantadeira, respectivamente. Os bordões vêm apresentando ao longo das décadas um desenho cada vez menor, de copa mais fechada -- provavelmente a seguir uma afinação em dó cada vez mais brilhante.
Outros dispositivos vêm sendo desenvolvidos, principalmente aos finais dos anos 1990, tomando muito como base a gaita das Highlands como exemplo. Fole de gore-tex, palhões sintéticos, válvulas mais incrementadas, estabilizadores de bordões e controladores de umidade interna da bolsa.
A gaita galega costuma ser construída com madeira de buxo, pau santo, cocobolo e jacarandá-africano. Seus anéis são tradicionalmente de chifre ou madeira, mas modelos em metal ou marfim (e sua imitação) são cada vez mais frequentes. Suas vestes e franjas geralmente combinam o preto e o vermelho, mas uma gama de cores é comum também.
Os registros mais antigos sobre o instrumento datam já do século XVIII, em sua ampla maioria escritos. Sua cultura vinha sendo passada até meados do século XX oralmente, de pai para filho, com diferenças sutis entre cada aldeia e região. É possível encontrar manifestações tradicionais entre populações rurais mais ao sul de Trás-os-montes, como em regiões dos distritos da Guarda e de Castelo Branco, mas já no Algarve os populares se referem ao gaiteiro como músico do Norte¹.
Essa rica porém frágil tradição correu sério risco de extinção já a partir de 1960, quando o antropólogo português Ernesto Veiga de Oliveira passou a fazer recolhas pelo país e a alertar para o risco da perda de tão singular manifestação cultural. Os motivos para tal queda de popularidade são os mais variados: desde os tradicionalmente ligados a qualquer gaita-de-fole – como a concorrência com outros instrumentos, feito o violão, o órgão e o acordeão – até o êxodo das populações jovens para áreas urbanas ou mesmo a emigração (especialmente Brasil e França), rompendo com as tradições pastoris de suas origens. Uma das consequências mais notórias da obliteração do instrumento é o limitado repertório tradicional hoje conhecido, variando pouco de região para região. Muitas músicas, transmitidas apenas oralmente, eram conhecidas, à época das recolhas de Oliveira, ainda por uns poucos músicos, considerados como a última geração de gaiteiros tradicionais, da qual ainda restam alguns poucos.
Lentamente, ao longo das últimas duas décadas, trabalhos de resgate vêm sendo promovidos por diversos grupos por todo Portugal, a reinserir o instrumento na cultura lusitana. Grande parte do repertório remanescente e imagens de diferentes instrumentistas e suas gaitas transmontanas estão compilados em alguns acervos, como os de Veiga de Oliveira, Sons da Terra e da Associação Gaita-de-Fole. Também, uma série de novos instrumentistas solo e grupos musicais vêm surgindo, como os Galandum Galundaina, Lenga Lenga - Gaiteiros de Sendim e Trasga grupos das terras de Miranda,Gaiteiros de Lisboa e Gaitafolia, os quais vêm produzindo muito material novo para a gaita transmontana. Não obstante, vem sendo promovido com regularidade o Festival Anual de Gaitas-de-Fole, a reunir inúmeros instrumentistas.
Muitos alegam que a gaita transmontana estaria entre os primeiros instrumentos musicais europeus com registro conhecido na América do Sul. Isso devido a uma passagem da carta escrita por Pero Vaz de Caminha quando a frota de Pedro Álvares Cabral aportou em solo brasílico:
(...) Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.
(...) E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.
Contudo, ainda que o referido gaiteiro seja um tocador de gaita-de-fole e não outro tipo de gaita (como o acordeão), dificilmente se pode atestar qual modelo de gaita ele estava a tocar. A Península Ibérica sempre foi terreno fértil para o surgimento de diversos modelos de gaita-de-fole, alguns dos quais não sobreviveram até os dias de hoje. Além disso, a gaita galega, ainda que provavelmente um modelo um tanto diferente do atual, sempre foi tão popular quanto a gaita transmontana, senão mais, em especial na região litorânea do Douro, onde ela é tida como gaita minhota. Também, reservam-se algumas suspeitas de historiadores quanto à legitimidade da carta de Caminha, que segundo alguns fora escrita muito tempo depois do ocorrido, com o acréscimo de diversos fatos.
Outros vestígios indiretos nos levam a crer que a gaita transmontana dificilmente experimentou uma posição de destaque no decorrer da formação da cultura brasileira. Sua afinação peculiar, si menor, não encontra similar no rico repertório popular brasileiro. Contudo, é possível que o instrumento tenha alcançado não só o Brasil, mas outros territórios ultramarinos, por meio de vários gaiteiros. As sucessivas ondas migratórias de Portugal ao Brasil se deram principalmente por populações nortenhas, constituintes à época da parcela mais humilde do povo português. Contudo, enquanto outros traços de tradições das regiões lusitanas setentrionais são facilmente encontrados no cotidiano brasileiro, a gaita transmontana se perdeu ao longo da história.
A gaita transmontana compartilha diversos aspectos estruturais com gaitas de regiões vizinhas: a gaita sanabresa, a gaita zamorana e a gaita alistana. Muito se discute se realmente é válida a distinção entre elas, tamanha suas semelhanças, mas há de se lembrar que um objeto não se define apenas por sua estrutura, mas sim por seu contexto, sua tradição, suas técnicas e seu repertório, a formar um significado específico para determinada população.
Constituída sempre de apenas um bordão baixo com palhão (duas oitavas abaixo) e uma cantadeira cônica com palheta dupla, ao passo que sua bolsa também possui um desenho característico, a usar o couro inteiro do bode.
Essa gaita é mais comumente construída em madeira de buxo e com anéis de corno, sendo frequente uma rica adornação de suas peças com motivos pastoris geométricos. Ainda hoje há poucos luthiers deste modelo de gaita, sendo geralmente construído de forma artesanal pelos próprios instrumentistas em populações pastoris do nordeste de Portugal. Contudo, cada vez mais artesãos dedicados à construção de instrumentos musicais voltam-se para esta gaita, não apenas em Portugal mas noutros países também, sobretudo Galiza e Brasil.
Diferentemente de alguns modelos de gaita, ainda carecem-se acessórios modernos para o instrumento, mas é comum aproveitar alguns itens desenvolvidos para a gaita das Highlands, como bolsas de gore-tex, palhões sintéticos e estabilizadores de bordões.
Palheta dupla de cantadeira transmontana.
A veste da bolsa costuma trazer padrões coloridos, além de adornos pendurados nos bordões e franjas típicas, como na maioria das gaitas ibéricas.
É em sua afinação que se encontra a maior peculiaridade da gaita transmontana. Ao passo que sua nota fundamental pode ser em Si, Sib ou Lá, com a subtónica (não-sensível) um tom abaixo, em modo eólio torna sua escala distinta, parecendo a alguns um instrumento oriental. É discutível se este modo é plenamente eólio, dado a típica disposiçāo nāo temperada do ponteiro das gaitas conservadas, mas é no padrão eólio que resulta mais fácil encaixá-las. Seu isolamento entre as montanhas portuguesas a conservou à parte das tendências musicais que o Ocidente passou a estabelecer a partir do Barroco, como a predileção pelo modo jônio e um aumento do timbre. No entanto, a terceira menor na escala base do ponteiro aparece às vezes em instrumentos concretos em Sanábria, Astúrias e Galiza. A palheta de sua cantadeira é robusta e forte, com um volume bem audível, típico de um instrumento de ar-livre. Sua digitação é aberta e soa uma oitava não-cromática. Seu único bordão baixo soa na tónica duas oitavas abaixo da cantadeira.
Vou fazer uma pequena descrição do que é ser dançarino:Ser dançarino é aprender a dançar todos os tipos de musica;explo:(valsas,tangos,passos-doble,dança do ventre,musica latina,etc,etc...
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terça-feira, 18 de maio de 2010
terça-feira, 11 de maio de 2010
A Gaita de Foles na Região de Caldas da Rainha
A gaita de foles foi certamente outrora,um instrumento corrente e de primeiro plano,hoje,nesta área,ela perdeu muito do seu sentido:marginal e rara e menos ajustada à música mais corrente na região,ela chegou ao nosso tempo praticamente apenas em funções cerimoniais populares.
Até ao século XVI foi um instrumento popular da maior importância em Portugal(Gil Vicente,no "triunfo do Inverno"recorda que em 1510 se via "gaita em cada palheiro").
Nas suas representações mais antigas,vê-se geralmente em mãos de pastores,na adoração do Menino,nos Presépios e natividades, segundo uma tradição mediaval que,atinge a Península e outros países ocidentais largamente documentada em Espanha e ainda hoje são próprios do Natal em Presépios e Missas de Galo.
A gaita de foles contudo na área pastoril portuguesa ocorre apenas em Trás-os-Montes e encontra-se em toda a faixa ocidental do Minho ao Tejo numa zona que há muito perdeu todo o carácter pastoril que porventura tinha.
As harmónicas,acordeões e concertinas, importantes de fora e sem quaisquer características regionais,parece terem vindo ocupar o lugar dos velhos instrumentos(cordofones)locais que tendem de resto a eliminar,totalmente,devido também ao seu fácil ajustamento aos tipos musicais mais recentes,instrumentos essencialmente para expanções lúdicas ou líricas e menos próprias para funções cerimoniais ou outros géneros mais austeros.
Em Portugal,as gaitas de foles,tamboris(tambor pequeno) e flautas,só em casos raros acompanhavam o canto.Usam-se normalmente sozinhos,ou no que se refere à gaita de foles,com um acompanhamento típico de bombos ou caixas e em algumas regiões e circunstâncias(Trás-os-Montes)além deles,de pandeiros(pandeiretas mais pequenas),ferrinhos,castanholas ou reco reco.
Gaitas de foles,pandeiros ou adufes(tipo de pandeiro quadrado),tamboris e flautas podem considerar-se instrumentos de carácter pastoril que pressupõe naturalmente nos seus primórdios,uma disponibilidade de peles que só parece possível em áreas de cultura pastoril,onde abundam rebanhos.
A gaita de foles figura por direito próprio e ancestral nos mais variados acontecimentos solenes de natureza religiosa,tocando dentro dos templos nas procissões,cortejos,círios(estandarte religioso que é usado em procissões e romarias).
Em toda a região saloia em geral,o gaiteiro constituía uma figura indispensável em todas as festas.Ele ouvia-se nas festividades acompanhando o juiz e demais festeiros no peditório na aldeia e proximidades,na espera que faziam à juíza e depois no cortejo até à igreja à frente,seguido pelo juiz com a bandeira e os procuradores com as fogaças.Durante a missa o gaiteiro tocava à Elevação e na procissão final ia adiante,procedido pelo fogueteiro e logo antes do guião.
No papel de primeiro plano o gaiteiro desempenha nas romarias da região ou "cìrios"(grande vela usada nas procissões) estremenhos,diferentes das romarias nortenhas,porque os festeiros da celebração pertencem,por direitos por vezes multisseculares,a povoações geralmente muito distantes do Santuário e a festa consiste precisamente na condução do círio ou guião,em vistoso cortejo,ainda hoje,em casos já raros em carro de bois ou carroças de cavalos armados e muito ornamentados,ás vezes em grande número pelos caminhos da charneca e mais recentemente em autocarros ou mesmo em carros de aluguer.
Nos círios de Santa Susana e do Carregal ele figura infalivelmente no cortejo no carro da frente ao lado dos mordomos e festeiros,com o guião e as lanternas e toca durante as longas horas do percurso á passagem das aldeias do caminho e sobretudo á chegada,nos momentos mais solenes,durante as três voltas rituais em redor da capela,onde entra finalmente a tocar acompanhando a deposição do guião junto do altar da imagem.
O regresso do círio faz-se daí a um ou dois dias e comporta idênticas cerimónias,ouvindo-se o gaiteiro semelhantemente pelo caminho e na procissão que á chegada,se organiza para a condução do guião de novo á Igreja da aldei,tocando também no próprio templo e a final,nas "entregas" da "bandeira" entre "juizes" velhos e novos.Pode-seainda nesta zona ver o gaiteiro em ocasiões menos solenes,por vezes a animar quaisquer bailaricos aos domingos.
(Armando Leça no seu livro Música popular Portuguesa,por exemplo,refere ter visto em Alcobaça bailarem o fandango ao toque da gaita de foles).
Até aos nossos dias chegaram ainda tocadores ou histórias de gaiteiros nas zonas de Torres Vedras,Bombarral,Santarrem,Aldeia Galega,Caldas da Rainha,Óbidos e Nazaré.
A música dos gaiteiros estremenhos é cerimonial unicamente pelas suas funções e nenhum carácter original,arcaico ou litúrgico,apresaenta actualmene:apenas a escala especial do instrumento lhe empresta saber único rústico e peculiar.O gaiteiro não possuía categorias oficiais nem usava traje específico.
Na edição do museu Joaquim Manso da Nazaré no livro Iconografia da Nossa Sr.ª da Nazaré de Savedra Machado encontram-se referências aos gaiteiros dos círios que chegavam a vir de "17 léguas de disância".
Joaquim dos Santos Júnior mais conhecido por JoaquimMouco,nascido em 1907,nas Gaeiras, analfabeto mas com uma aptidão excepcional para memorizar músicas,foi o último gaiteiro da nossa zona.
Abegão quando novo,exímio jogador do pau fazia peditórios nas aldeias vizinhas,tocador de serviço nos arraiais e círios da zona,Ssnta Susana,Carregal,Nazaré,Vau,Gaeiras,(Nossa Sr.ª da Ajuda como manda a tradição acompanhada de festeiros,dos foguetes e do estandarte do Santo,faziam em tempo de festa a recolha daas ofertas que se traduziam em milho,feijão,trigo,vinho,assaduras e até dinheiro).
Chegou a fazer bailes tocando gaita de foles e flauta.
Um pormenor curioso é que todos os gaiteiros têm histórias de lobos ou lobisomens que os atacavam ou lhes apareciam pela noite nos seus percursos a pé de regresso dos folguedos.
Actualmente a gaita de foles na região estremanha,onde nos inserimos,existe na zona de Torres Vedras e mais a norte na zona de Coimbran e perdeu todo o seu carácter pastoril.
O Rancho Etnográfico da Fanadia "As Ceifeiras"apresenta-a nalgumas interpretações musicais(reinadios,valsas,bailaricos e verde gaios),recuperando a tradição e ainda faz todos os anos na sua festa em honra de São Sebastião o tradicional peditório com o gaiteiro,os foguetes,o tesoureiro e o estandarte do Santo.
Conta-se que em forma de cavalinho branco um lobisomem apareceu a Joaquim Mouco numa encruzilhada pela noite,Joaquim seduzido pela beleza e pela oportunidade que se lhe oferecia tentou cativá-lo e com a cinta prendeu-o no pescoço quando o cavalinho lhe "deu a mão".Montou-o para o levar para casa e tocou-o e o cavalinho parecendo uma faísca correu a grande velocidade por entre pinheiros e oliveiras,matos e caminhos até que Joaquim caiu e ficou sem saber onde se encontrava.
Até ao século XVI foi um instrumento popular da maior importância em Portugal(Gil Vicente,no "triunfo do Inverno"recorda que em 1510 se via "gaita em cada palheiro").
Nas suas representações mais antigas,vê-se geralmente em mãos de pastores,na adoração do Menino,nos Presépios e natividades, segundo uma tradição mediaval que,atinge a Península e outros países ocidentais largamente documentada em Espanha e ainda hoje são próprios do Natal em Presépios e Missas de Galo.
A gaita de foles contudo na área pastoril portuguesa ocorre apenas em Trás-os-Montes e encontra-se em toda a faixa ocidental do Minho ao Tejo numa zona que há muito perdeu todo o carácter pastoril que porventura tinha.
As harmónicas,acordeões e concertinas, importantes de fora e sem quaisquer características regionais,parece terem vindo ocupar o lugar dos velhos instrumentos(cordofones)locais que tendem de resto a eliminar,totalmente,devido também ao seu fácil ajustamento aos tipos musicais mais recentes,instrumentos essencialmente para expanções lúdicas ou líricas e menos próprias para funções cerimoniais ou outros géneros mais austeros.
Em Portugal,as gaitas de foles,tamboris(tambor pequeno) e flautas,só em casos raros acompanhavam o canto.Usam-se normalmente sozinhos,ou no que se refere à gaita de foles,com um acompanhamento típico de bombos ou caixas e em algumas regiões e circunstâncias(Trás-os-Montes)além deles,de pandeiros(pandeiretas mais pequenas),ferrinhos,castanholas ou reco reco.
Gaitas de foles,pandeiros ou adufes(tipo de pandeiro quadrado),tamboris e flautas podem considerar-se instrumentos de carácter pastoril que pressupõe naturalmente nos seus primórdios,uma disponibilidade de peles que só parece possível em áreas de cultura pastoril,onde abundam rebanhos.
A gaita de foles figura por direito próprio e ancestral nos mais variados acontecimentos solenes de natureza religiosa,tocando dentro dos templos nas procissões,cortejos,círios(estandarte religioso que é usado em procissões e romarias).
Em toda a região saloia em geral,o gaiteiro constituía uma figura indispensável em todas as festas.Ele ouvia-se nas festividades acompanhando o juiz e demais festeiros no peditório na aldeia e proximidades,na espera que faziam à juíza e depois no cortejo até à igreja à frente,seguido pelo juiz com a bandeira e os procuradores com as fogaças.Durante a missa o gaiteiro tocava à Elevação e na procissão final ia adiante,procedido pelo fogueteiro e logo antes do guião.
No papel de primeiro plano o gaiteiro desempenha nas romarias da região ou "cìrios"(grande vela usada nas procissões) estremenhos,diferentes das romarias nortenhas,porque os festeiros da celebração pertencem,por direitos por vezes multisseculares,a povoações geralmente muito distantes do Santuário e a festa consiste precisamente na condução do círio ou guião,em vistoso cortejo,ainda hoje,em casos já raros em carro de bois ou carroças de cavalos armados e muito ornamentados,ás vezes em grande número pelos caminhos da charneca e mais recentemente em autocarros ou mesmo em carros de aluguer.
Nos círios de Santa Susana e do Carregal ele figura infalivelmente no cortejo no carro da frente ao lado dos mordomos e festeiros,com o guião e as lanternas e toca durante as longas horas do percurso á passagem das aldeias do caminho e sobretudo á chegada,nos momentos mais solenes,durante as três voltas rituais em redor da capela,onde entra finalmente a tocar acompanhando a deposição do guião junto do altar da imagem.
O regresso do círio faz-se daí a um ou dois dias e comporta idênticas cerimónias,ouvindo-se o gaiteiro semelhantemente pelo caminho e na procissão que á chegada,se organiza para a condução do guião de novo á Igreja da aldei,tocando também no próprio templo e a final,nas "entregas" da "bandeira" entre "juizes" velhos e novos.Pode-seainda nesta zona ver o gaiteiro em ocasiões menos solenes,por vezes a animar quaisquer bailaricos aos domingos.
(Armando Leça no seu livro Música popular Portuguesa,por exemplo,refere ter visto em Alcobaça bailarem o fandango ao toque da gaita de foles).
Até aos nossos dias chegaram ainda tocadores ou histórias de gaiteiros nas zonas de Torres Vedras,Bombarral,Santarrem,Aldeia Galega,Caldas da Rainha,Óbidos e Nazaré.
A música dos gaiteiros estremenhos é cerimonial unicamente pelas suas funções e nenhum carácter original,arcaico ou litúrgico,apresaenta actualmene:apenas a escala especial do instrumento lhe empresta saber único rústico e peculiar.O gaiteiro não possuía categorias oficiais nem usava traje específico.
Na edição do museu Joaquim Manso da Nazaré no livro Iconografia da Nossa Sr.ª da Nazaré de Savedra Machado encontram-se referências aos gaiteiros dos círios que chegavam a vir de "17 léguas de disância".
Joaquim dos Santos Júnior mais conhecido por JoaquimMouco,nascido em 1907,nas Gaeiras, analfabeto mas com uma aptidão excepcional para memorizar músicas,foi o último gaiteiro da nossa zona.
Abegão quando novo,exímio jogador do pau fazia peditórios nas aldeias vizinhas,tocador de serviço nos arraiais e círios da zona,Ssnta Susana,Carregal,Nazaré,Vau,Gaeiras,(Nossa Sr.ª da Ajuda como manda a tradição acompanhada de festeiros,dos foguetes e do estandarte do Santo,faziam em tempo de festa a recolha daas ofertas que se traduziam em milho,feijão,trigo,vinho,assaduras e até dinheiro).
Chegou a fazer bailes tocando gaita de foles e flauta.
Um pormenor curioso é que todos os gaiteiros têm histórias de lobos ou lobisomens que os atacavam ou lhes apareciam pela noite nos seus percursos a pé de regresso dos folguedos.
Actualmente a gaita de foles na região estremanha,onde nos inserimos,existe na zona de Torres Vedras e mais a norte na zona de Coimbran e perdeu todo o seu carácter pastoril.
O Rancho Etnográfico da Fanadia "As Ceifeiras"apresenta-a nalgumas interpretações musicais(reinadios,valsas,bailaricos e verde gaios),recuperando a tradição e ainda faz todos os anos na sua festa em honra de São Sebastião o tradicional peditório com o gaiteiro,os foguetes,o tesoureiro e o estandarte do Santo.
Conta-se que em forma de cavalinho branco um lobisomem apareceu a Joaquim Mouco numa encruzilhada pela noite,Joaquim seduzido pela beleza e pela oportunidade que se lhe oferecia tentou cativá-lo e com a cinta prendeu-o no pescoço quando o cavalinho lhe "deu a mão".Montou-o para o levar para casa e tocou-o e o cavalinho parecendo uma faísca correu a grande velocidade por entre pinheiros e oliveiras,matos e caminhos até que Joaquim caiu e ficou sem saber onde se encontrava.
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