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terça-feira, 18 de maio de 2010

Mitos e lendas da Gaita de Foles Portuguesa

Reza a história, segundo a mitologia grega, que foi a Deusa Atena a inventora da gaita. Decidida a abrilhantar a assembleia dos deuses com um novo instrumento de nome Aulo (assim se chamava), Atena tocou-o durante um banquete. Contudo, os deuses riram-se ao verem as suas bochechas inchadas, e furiosa a Deusa deitou-o fora amaldiçoando quem o viesse a encontrar. A gaita galega (ou gaita-de-fole galega, gaita minhota, gaita de fol ou simplesmente gaita) é um dos modelos mais conhecidos de gaita-de-fole. Originária do noroeste ibérico, a gaita galega tem experimentado uma crescente popularidade principalmente a partir dos anos 1970. Até então, como diversas outras facetas da cultura galega, esse instrumento sofreu de certa proscrição durante o governo de Francisco Franco. Contudo, para além duma maior liberdade de expressão conquistada pelo povo galego desde fins do regime franquista, um dos principais fatores da expansão da gaita galega foi a proliferação de artistas e grupos de música folclórica, a evidenciar a cultura galega.

Tradicionalmente a gaita galega se situa na Galiza e norte de Portugal, especialmente entre Minho e Douro Litoral – onde o modelo recebeu a alcunha de gaita minhota. Contudo ela é hoje tocada pelo mundo inteiro, especialmente em regiões de destino dos antigos imigrantes galegos, os quais emigraram de sua terra durante a chamada diáspora galega.

Hoje esse é justamente um dos grandes questionamentos para os entusiastas da gaita galega: como permitir sua popularização entre o público moderno sem perder traços de sua tradição.

A gaita galega tradicionalmente apresentava apenas três tubos melódicos: a cantadeira (ou ponteiro), o bordão (ou roncão) e o assoprador (ou soprete). No litoral português ela assim se preservou entre os populares.

Contudo, a partir de meados do século XX ela passa a sofrer transformações, que se antes já apresentava algumas dessas características, passaram a ser muito mais comuns: o ronquete (bordão tenor) e o ronquilho ou chilão (bordão alto, o menor de todos). Também, as afinações tradicionais em si e ré foram aos poucos sendo preteridas em relação à afinação em dó. As gaitas galegas tocadas tradicionalmente pelo Minho preservaram-se em geral nos moldes mais antigos.

Sua cantadeira possui afinação cônica, sendo meio-tom a diferença entre a nota fundamental e a tonal; utiliza palheta de cana dupla. O bordão baixo por sua vez utiliza palhão (palheta simples), afinado duas oitavas abaixo da tonal da cantadeira. O bordão tenor (ronquete) e o chilão também utilizam palhões, afinados uma oitava e uma quinta em relação à cantadeira, respectivamente. Os bordões vêm apresentando ao longo das décadas um desenho cada vez menor, de copa mais fechada -- provavelmente a seguir uma afinação em dó cada vez mais brilhante.

Outros dispositivos vêm sendo desenvolvidos, principalmente aos finais dos anos 1990, tomando muito como base a gaita das Highlands como exemplo. Fole de gore-tex, palhões sintéticos, válvulas mais incrementadas, estabilizadores de bordões e controladores de umidade interna da bolsa.

A gaita galega costuma ser construída com madeira de buxo, pau santo, cocobolo e jacarandá-africano. Seus anéis são tradicionalmente de chifre ou madeira, mas modelos em metal ou marfim (e sua imitação) são cada vez mais frequentes. Suas vestes e franjas geralmente combinam o preto e o vermelho, mas uma gama de cores é comum também.
Os registros mais antigos sobre o instrumento datam já do século XVIII, em sua ampla maioria escritos. Sua cultura vinha sendo passada até meados do século XX oralmente, de pai para filho, com diferenças sutis entre cada aldeia e região. É possível encontrar manifestações tradicionais entre populações rurais mais ao sul de Trás-os-montes, como em regiões dos distritos da Guarda e de Castelo Branco, mas já no Algarve os populares se referem ao gaiteiro como músico do Norte¹.

Essa rica porém frágil tradição correu sério risco de extinção já a partir de 1960, quando o antropólogo português Ernesto Veiga de Oliveira passou a fazer recolhas pelo país e a alertar para o risco da perda de tão singular manifestação cultural. Os motivos para tal queda de popularidade são os mais variados: desde os tradicionalmente ligados a qualquer gaita-de-fole – como a concorrência com outros instrumentos, feito o violão, o órgão e o acordeão – até o êxodo das populações jovens para áreas urbanas ou mesmo a emigração (especialmente Brasil e França), rompendo com as tradições pastoris de suas origens. Uma das consequências mais notórias da obliteração do instrumento é o limitado repertório tradicional hoje conhecido, variando pouco de região para região. Muitas músicas, transmitidas apenas oralmente, eram conhecidas, à época das recolhas de Oliveira, ainda por uns poucos músicos, considerados como a última geração de gaiteiros tradicionais, da qual ainda restam alguns poucos.

Lentamente, ao longo das últimas duas décadas, trabalhos de resgate vêm sendo promovidos por diversos grupos por todo Portugal, a reinserir o instrumento na cultura lusitana. Grande parte do repertório remanescente e imagens de diferentes instrumentistas e suas gaitas transmontanas estão compilados em alguns acervos, como os de Veiga de Oliveira, Sons da Terra e da Associação Gaita-de-Fole. Também, uma série de novos instrumentistas solo e grupos musicais vêm surgindo, como os Galandum Galundaina, Lenga Lenga - Gaiteiros de Sendim e Trasga grupos das terras de Miranda,Gaiteiros de Lisboa e Gaitafolia, os quais vêm produzindo muito material novo para a gaita transmontana. Não obstante, vem sendo promovido com regularidade o Festival Anual de Gaitas-de-Fole, a reunir inúmeros instrumentistas.
Muitos alegam que a gaita transmontana estaria entre os primeiros instrumentos musicais europeus com registro conhecido na América do Sul. Isso devido a uma passagem da carta escrita por Pero Vaz de Caminha quando a frota de Pedro Álvares Cabral aportou em solo brasílico:

(...) Com isto se volveu Bartolomeu Dias ao Capitão. E viemo-nos às naus, a comer, tangendo trombetas e gaitas, sem os mais constranger. E eles tornaram-se a sentar na praia, e assim por então ficaram.
(...) E além do rio andavam muitos deles dançando e folgando, uns diante os outros, sem se tomarem pelas mãos. E faziam-no bem. Passou-se então para a outra banda do rio Diogo Dias, que fora almoxarife de Sacavém, o qual é homem gracioso e de prazer. E levou consigo um gaiteiro nosso com sua gaita. E meteu-se a dançar com eles, tomando-os pelas mãos; e eles folgavam e riam e andavam com ele muito bem ao som da gaita. Depois de dançarem fez ali muitas voltas ligeiras, andando no chão, e salto real, de que se eles espantavam e riam e folgavam muito. E conquanto com aquilo os segurou e afagou muito, tomavam logo uma esquiveza como de animais monteses, e foram-se para cima.

Contudo, ainda que o referido gaiteiro seja um tocador de gaita-de-fole e não outro tipo de gaita (como o acordeão), dificilmente se pode atestar qual modelo de gaita ele estava a tocar. A Península Ibérica sempre foi terreno fértil para o surgimento de diversos modelos de gaita-de-fole, alguns dos quais não sobreviveram até os dias de hoje. Além disso, a gaita galega, ainda que provavelmente um modelo um tanto diferente do atual, sempre foi tão popular quanto a gaita transmontana, senão mais, em especial na região litorânea do Douro, onde ela é tida como gaita minhota. Também, reservam-se algumas suspeitas de historiadores quanto à legitimidade da carta de Caminha, que segundo alguns fora escrita muito tempo depois do ocorrido, com o acréscimo de diversos fatos.

Outros vestígios indiretos nos levam a crer que a gaita transmontana dificilmente experimentou uma posição de destaque no decorrer da formação da cultura brasileira. Sua afinação peculiar, si menor, não encontra similar no rico repertório popular brasileiro. Contudo, é possível que o instrumento tenha alcançado não só o Brasil, mas outros territórios ultramarinos, por meio de vários gaiteiros. As sucessivas ondas migratórias de Portugal ao Brasil se deram principalmente por populações nortenhas, constituintes à época da parcela mais humilde do povo português. Contudo, enquanto outros traços de tradições das regiões lusitanas setentrionais são facilmente encontrados no cotidiano brasileiro, a gaita transmontana se perdeu ao longo da história.
A gaita transmontana compartilha diversos aspectos estruturais com gaitas de regiões vizinhas: a gaita sanabresa, a gaita zamorana e a gaita alistana. Muito se discute se realmente é válida a distinção entre elas, tamanha suas semelhanças, mas há de se lembrar que um objeto não se define apenas por sua estrutura, mas sim por seu contexto, sua tradição, suas técnicas e seu repertório, a formar um significado específico para determinada população.

Constituída sempre de apenas um bordão baixo com palhão (duas oitavas abaixo) e uma cantadeira cônica com palheta dupla, ao passo que sua bolsa também possui um desenho característico, a usar o couro inteiro do bode.

Essa gaita é mais comumente construída em madeira de buxo e com anéis de corno, sendo frequente uma rica adornação de suas peças com motivos pastoris geométricos. Ainda hoje há poucos luthiers deste modelo de gaita, sendo geralmente construído de forma artesanal pelos próprios instrumentistas em populações pastoris do nordeste de Portugal. Contudo, cada vez mais artesãos dedicados à construção de instrumentos musicais voltam-se para esta gaita, não apenas em Portugal mas noutros países também, sobretudo Galiza e Brasil.

Diferentemente de alguns modelos de gaita, ainda carecem-se acessórios modernos para o instrumento, mas é comum aproveitar alguns itens desenvolvidos para a gaita das Highlands, como bolsas de gore-tex, palhões sintéticos e estabilizadores de bordões.
Palheta dupla de cantadeira transmontana.

A veste da bolsa costuma trazer padrões coloridos, além de adornos pendurados nos bordões e franjas típicas, como na maioria das gaitas ibéricas.
É em sua afinação que se encontra a maior peculiaridade da gaita transmontana. Ao passo que sua nota fundamental pode ser em Si, Sib ou Lá, com a subtónica (não-sensível) um tom abaixo, em modo eólio torna sua escala distinta, parecendo a alguns um instrumento oriental. É discutível se este modo é plenamente eólio, dado a típica disposiçāo nāo temperada do ponteiro das gaitas conservadas, mas é no padrão eólio que resulta mais fácil encaixá-las. Seu isolamento entre as montanhas portuguesas a conservou à parte das tendências musicais que o Ocidente passou a estabelecer a partir do Barroco, como a predileção pelo modo jônio e um aumento do timbre. No entanto, a terceira menor na escala base do ponteiro aparece às vezes em instrumentos concretos em Sanábria, Astúrias e Galiza. A palheta de sua cantadeira é robusta e forte, com um volume bem audível, típico de um instrumento de ar-livre. Sua digitação é aberta e soa uma oitava não-cromática. Seu único bordão baixo soa na tónica duas oitavas abaixo da cantadeira.

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