Minha lista de blogs

Pesquisar este blog

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Gaita de Foles na Região de Caldas da Rainha

A gaita de foles foi certamente outrora,um instrumento corrente e de primeiro plano,hoje,nesta área,ela perdeu muito do seu sentido:marginal e rara e menos ajustada à música mais corrente na região,ela chegou ao nosso tempo praticamente apenas em funções cerimoniais populares.
Até ao século XVI foi um instrumento popular da maior importância em Portugal(Gil Vicente,no "triunfo do Inverno"recorda que em 1510 se via "gaita em cada palheiro").
Nas suas representações mais antigas,vê-se geralmente em mãos de pastores,na adoração do Menino,nos Presépios e natividades, segundo uma tradição mediaval que,atinge a Península e outros países ocidentais largamente documentada em Espanha e ainda hoje são próprios do Natal em Presépios e Missas de Galo.
A gaita de foles contudo na área pastoril portuguesa ocorre apenas em Trás-os-Montes e encontra-se em toda a faixa ocidental do Minho ao Tejo numa zona que há muito perdeu todo o carácter pastoril que porventura tinha.
As harmónicas,acordeões e concertinas, importantes de fora e sem quaisquer características regionais,parece terem vindo ocupar o lugar dos velhos instrumentos(cordofones)locais que tendem de resto a eliminar,totalmente,devido também ao seu fácil ajustamento aos tipos musicais mais recentes,instrumentos essencialmente para expanções lúdicas ou líricas e menos próprias para funções cerimoniais ou outros géneros mais austeros.
Em Portugal,as gaitas de foles,tamboris(tambor pequeno) e flautas,só em casos raros acompanhavam o canto.Usam-se normalmente sozinhos,ou no que se refere à gaita de foles,com um acompanhamento típico de bombos ou caixas e em algumas regiões e circunstâncias(Trás-os-Montes)além deles,de pandeiros(pandeiretas mais pequenas),ferrinhos,castanholas ou reco reco.
Gaitas de foles,pandeiros ou adufes(tipo de pandeiro quadrado),tamboris e flautas podem considerar-se instrumentos de carácter pastoril que pressupõe naturalmente nos seus primórdios,uma disponibilidade de peles que só parece possível em áreas de cultura pastoril,onde abundam rebanhos.
A gaita de foles figura por direito próprio e ancestral nos mais variados acontecimentos solenes de natureza religiosa,tocando dentro dos templos nas procissões,cortejos,círios(estandarte religioso que é usado em procissões e romarias).
Em toda a região saloia em geral,o gaiteiro constituía uma figura indispensável em todas as festas.Ele ouvia-se nas festividades acompanhando o juiz e demais festeiros no peditório na aldeia e proximidades,na espera que faziam à juíza e depois no cortejo até à igreja à frente,seguido pelo juiz com a bandeira e os procuradores com as fogaças.Durante a missa o gaiteiro tocava à Elevação e na procissão final ia adiante,procedido pelo fogueteiro e logo antes do guião.
No papel de primeiro plano o gaiteiro desempenha nas romarias da região ou "cìrios"(grande vela usada nas procissões) estremenhos,diferentes das romarias nortenhas,porque os festeiros da celebração pertencem,por direitos por vezes multisseculares,a povoações geralmente muito distantes do Santuário e a festa consiste precisamente na condução do círio ou guião,em vistoso cortejo,ainda hoje,em casos já raros em carro de bois ou carroças de cavalos armados e muito ornamentados,ás vezes em grande número pelos caminhos da charneca e mais recentemente em autocarros ou mesmo em carros de aluguer.
Nos círios de Santa Susana e do Carregal ele figura infalivelmente no cortejo no carro da frente ao lado dos mordomos e festeiros,com o guião e as lanternas e toca durante as longas horas do percurso á passagem das aldeias do caminho e sobretudo á chegada,nos momentos mais solenes,durante as três voltas rituais em redor da capela,onde entra finalmente a tocar acompanhando a deposição do guião junto do altar da imagem.
O regresso do círio faz-se daí a um ou dois dias e comporta idênticas cerimónias,ouvindo-se o gaiteiro semelhantemente pelo caminho e na procissão que á chegada,se organiza para a condução do guião de novo á Igreja da aldei,tocando também no próprio templo e a final,nas "entregas" da "bandeira" entre "juizes" velhos e novos.Pode-seainda nesta zona ver o gaiteiro em ocasiões menos solenes,por vezes a animar quaisquer bailaricos aos domingos.
(Armando Leça no seu livro Música popular Portuguesa,por exemplo,refere ter visto em Alcobaça bailarem o fandango ao toque da gaita de foles).
Até aos nossos dias chegaram ainda tocadores ou histórias de gaiteiros nas zonas de Torres Vedras,Bombarral,Santarrem,Aldeia Galega,Caldas da Rainha,Óbidos e Nazaré.
A música dos gaiteiros estremenhos é cerimonial unicamente pelas suas funções e nenhum carácter original,arcaico ou litúrgico,apresaenta actualmene:apenas a escala especial do instrumento lhe empresta saber único rústico e peculiar.O gaiteiro não possuía categorias oficiais nem usava traje específico.
Na edição do museu Joaquim Manso da Nazaré no livro Iconografia da Nossa Sr.ª da Nazaré de Savedra Machado encontram-se referências aos gaiteiros dos círios que chegavam a vir de "17 léguas de disância".
Joaquim dos Santos Júnior mais conhecido por JoaquimMouco,nascido em 1907,nas Gaeiras, analfabeto mas com uma aptidão excepcional para memorizar músicas,foi o último gaiteiro da nossa zona.
Abegão quando novo,exímio jogador do pau fazia peditórios nas aldeias vizinhas,tocador de serviço nos arraiais e círios da zona,Ssnta Susana,Carregal,Nazaré,Vau,Gaeiras,(Nossa Sr.ª da Ajuda como manda a tradição acompanhada de festeiros,dos foguetes e do estandarte do Santo,faziam em tempo de festa a recolha daas ofertas que se traduziam em milho,feijão,trigo,vinho,assaduras e até dinheiro).
Chegou a fazer bailes tocando gaita de foles e flauta.
Um pormenor curioso é que todos os gaiteiros têm histórias de lobos ou lobisomens que os atacavam ou lhes apareciam pela noite nos seus percursos a pé de regresso dos folguedos.
Actualmente a gaita de foles na região estremanha,onde nos inserimos,existe na zona de Torres Vedras e mais a norte na zona de Coimbran e perdeu todo o seu carácter pastoril.
O Rancho Etnográfico da Fanadia "As Ceifeiras"apresenta-a nalgumas interpretações musicais(reinadios,valsas,bailaricos e verde gaios),recuperando a tradição e ainda faz todos os anos na sua festa em honra de São Sebastião o tradicional peditório com o gaiteiro,os foguetes,o tesoureiro e o estandarte do Santo.
Conta-se que em forma de cavalinho branco um lobisomem apareceu a Joaquim Mouco numa encruzilhada pela noite,Joaquim seduzido pela beleza e pela oportunidade que se lhe oferecia tentou cativá-lo e com a cinta prendeu-o no pescoço quando o cavalinho lhe "deu a mão".Montou-o para o levar para casa e tocou-o e o cavalinho parecendo uma faísca correu a grande velocidade por entre pinheiros e oliveiras,matos e caminhos até que Joaquim caiu e ficou sem saber onde se encontrava.

Nenhum comentário:

Postar um comentário